A era da portabilidade

Há algumas semanas estava assistindo uma palestra sobre relações humanas e o orador fazia brincadeiras da relação entre marido e mulher. Entre as risadas da platéia, alguém disse:

Às vezes a portabilidade pega (referindo-se a separação ou traição entre marido e mulher).

Quando ouvi isso pensei: Nossa! Estamos vivendo nesta era da portabilidade.

Começou com os celulares. Se você não está satisfeito com a companhia telefônica é só migrar para outra operadora e está resolvido o problema. Mesmo que nós saibamos que às vezes não é assim. Você troca de operadora e os problemas continuam.

A grande questão da portabilidade é que estamos levando este conceito para os relacionamentos pessoais e profissionais.

Olhe para o mercado de trabalho. Cada vez mais as pessoas trocam de emprego com uma facilidade assustadora. Isso não é ruim quando você muda para uma oportunidade melhor. O detalhe é que as pessoas estão trocando simplesmente por trocar. Se acontece um pequeno problema com o chefe, troca-se de emprego. Se precisa fazer algumas horas extras, troca-se de emprego. Brigou com um colega, troca-se de emprego. Dessa forma as relações profissionais estão cada vez mais frágeis. Não gostou, portabilizou.

Se isso é verdade no lado profissional, também é no lado pessoal. Vemos as taxas de divórcio ou separação dispararem. A taxa de divórcios, por exemplo, no país atingiu um índice recorde de 1,8 por mil habitantes em 2010. As pessoas estão com a tendência de não lutar pelos relacionamentos. Preferimos ir para a “próxima” do que batalhar para consertar a relação. Trocamos de amigos muito rápido. Se algo não agradou, não serve para minha companhia.

Me parece que antigamente as coisas tinham mais valor, pois você precisava cuidar bem delas. Se quebrava, tinha que consertar. Você precisava se preocupar e dar atenção para aquilo.

Com este conceito de portabilidade nas relações, principalmente no lado profissional, deixamos de crescer. Por que ao invés de aprendermos a resolver conflitos, conviver com a diferença, preferimos a saída mais fácil, trocar de emprego ou setor. Por detrás de uma dificuldade, está boas lições. Portanto não troque de emprego ou relações no primeiro obstáculo. Tente resolver, aprenda algo com isso e se realmente não houver saída, portabilize. Mas lembre-se use a portabilidade como última saída e não com primeira.